Surto de intoxicação por metanol pode estar ligada ao PCC no Brasil: Ministério da Saúde confirma 24 casos e cinco mortes
- Renalice Silva

- 8 de out. de 2025
- 4 min de leitura
ABCF denuncia que metanol importado por grupos criminosos pode ter sido usado em bebidas
O Brasil atravessa momento alarmante com o surto de intoxicações por metanol, confirmado pelo Ministério da Saúde nesta quarta-feira (8/10). O país contabiliza 24 casos confirmados, com cinco mortes, todas no estado de São Paulo.
As confirmações estão nos estados de São Paulo (20 casos), Paraná (3) e Rio Grande do Sul (1). Até agora, foram registradas 259 notificações, das quais 235 seguem sob investigação e 145 foram descartadas.

ABCF levanta suspeita de metanol desviado de combustíveis para adulteração de bebidas
A Associação Brasileira de Combate à Falsificação (ABCF) divulgou nota em 28 de setembro apontando uma linha de investigação contundente: o metanol usado para adulterar bebidas alcoólicas pode ter origem em estoques de metanol importado fraudulentamente por organizações criminosas, inclusive o PCC (Primeiro Comando da Capital), com destinação original ao mercado de combustíveis.
Segundo a ABCF:
“O fechamento nas últimas semanas de distribuidoras e formuladoras de combustível diretamente ligadas ao crime organizado, que importam metanol de maneira fraudulenta para adulteração de combustíveis, conforme já comprovado por investigações do GAECO e do MP de SP, podem ser a causa dessa recente onda de intoxicações e envenenamentos de consumidores que ao tomar bebidas destiladas em bares e casas noturnas, apresentaram intoxicação por metanol.”
A entidade também sugere:
“Ao ficar com tanques repletos de metanol lacrados e distribuidoras e formuladoras proibidas de operar, a facção e seus parceiros podem eventualmente ter revendido tal metanol a destilarias clandestinas e quadrilhas de falsificadores de bebidas, auferindo lucros milionários em detrimento da saúde dos consumidores.”
Segundo o Anuário da Falsificação ABCF 2025, o setor de bebidas foi o mais prejudicado pelo mercado ilegal no último ano, com perdas estimadas em R$ 88 bilhões — sendo R$ 29 bilhões em sonegação de tributos e R$ 59 bilhões em queda de faturamento das indústrias que produzem bebidas lícitas.
Importação irregular via porto do Paraná e desvio de rotas
Conforme apurações preliminares, a megaoperação deflagrada no mês passado para desmontar o esquema do PCC identificou que o porto de Paranaguá (PR) foi ponto de entrada do metanol importado irregularmente.
Relatórios investigativos apontam que o metanol chegava com documentação declarando uso legítimo por empresas químicas ou de biodiesel. Em seguida, parte do produto era desviada por motoristas para postos de combustíveis na Grande São Paulo e em outras regiões, burlando a fiscalização.
PF, Ministério da Justiça e investigação ligada à Operação Carbono Oculto
A Polícia Federal (PF) em conjunto com o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) apuram se esses estoques desviados de metanol foram utilizados para adulterar bebidas alcoólicas vendidas em bares e casas noturnas. A investigação flui na esteira da Operação Carbono Oculto, que já atuou no combate a fraudes no setor de combustíveis e possíveis vínculos com organizações criminosas.
O ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, reconheceu a existência de indícios, mas reforçou que ainda não há comprovação definitiva pública ligando o PCC ou outros grupos diretamente à adulteração das bebidas.
Provas periciais confirmam adição intencional do metanol
Peritos do Instituto de Criminalística da Polícia Científica de São Paulo confirmaram por laudos que o metanol presente nas bebidas apreendidas foi adicionado deliberadamente — não é resultado natural do processo de fermentação. A Secretaria de Segurança Pública (SSP) de São Paulo afirmou que as concentrações observadas nas amostras são incompatíveis com bebidas alcoólicas normais, reforçando a tese de adulteração proposital.
Distribuição de antídoto, casos em investigação e óbitos em apuração
Dos 235 casos sob investigação, 181 são em São Paulo, seguidos por Pernambuco (24), Paraná (5), Rio de Janeiro (5), Rio Grande do Sul (4), Mato Grosso do Sul (4), Piauí (4), Espírito Santo (3), Goiás (2), Acre (1), Paraíba (1) e Rondônia (1).
Além das cinco mortes confirmadas, 11 óbitos seguem sob averiguação: seis em São Paulo, três em Pernambuco, um em Mato Grosso do Sul e outro na Paraíba.
Para o tratamento das vítimas, o Ministério da Saúde recebeu 2,5 mil unidades de fomepizol, antídoto eficaz em casos de intoxicação por metanol. O medicamento, importado dos Estados Unidos pela Daiichi Sankyo Brasil, será distribuído conforme demanda estadual.
Metanol e seus riscos à saúde
O metanol é uma substância líquida, inflamável, incolor e altamente tóxica. Mesmo em doses pequenas, sua ingestão pode provocar efeitos graves. No organismo, o metanol é metabolizado por enzimas hepáticas em formaldeído e ácido fórmico, compostos extremamente tóxicos.
Essas substâncias podem causar:
Cegueira;
Acidose metabólica;
Depressão do sistema nervoso central (confusão, sonolência, convulsões, coma).
A dose mínima letal estimada é de cerca de 80 gramas (em pacientes não tratados). Sintomas visuais podem surgir já com metade dessa dose.
Urgência e recomendação para estabelecimentos
O MJSP (Ministério da Justiça e Segurança Pública) divulgou recomendação urgente a bares, distribuidores, restaurantes, casas noturnas e redes comerciais. O alerta vem num contexto em que foram contabilizados pelo menos nove casos de intoxicação por metanol nos últimos 26 dias em SP, com duas mortes confirmadas.
O documento técnico exige atuação integrada entre governo, setor privado e sociedade para impedir práticas de falsificação. Entre as recomendações estão:
Priorizar compra de bebidas com rastreamento e certificação visível;
Desconfiar de lacres tortos, erros de impressão ou preços muito baixos;
Em caso de sintomas em clientes (visão turva, náusea, dores de cabeça), encaminhar para atendimento médico e alertar órgãos como Vigilância Sanitária, Polícia Civil, PROCON e Ministério da Agricultura;
Interromper venda dos lotes suspeitos, isolar os produtos e preservá-los para perícia.
O documento abrange bares, restaurantes, hotéis, distribuidoras, aplicativos de entrega, mercados e eventos.














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