Falhas de segurança e fiscalização deficiente expõem cadeia de erros em mortes de crianças por xarope contaminado na Índia
- Renalice Silva

- 21 de nov. de 2025
- 3 min de leitura
As autoridades de Tamil Nadu, no sul da Índia, investigam se falhas no controle de qualidade e irregularidades no fornecimento de ingredientes farmacêuticos provocaram a contaminação de um xarope para tosse que levou à morte de pelo menos 24 crianças nos últimos meses. A substância investigada é o dietilenoglicol (DEG), um solvente industrial tóxico encontrado em níveis elevados no medicamento Coldrif, fabricado pela empresa Sresan Pharmaceutical Manufacturer.

Três autoridades de saúde e segurança de medicamentos, ouvidas pela Reuters, afirmam que há indícios de que o propilenoglicol (PG) usado na fabricação do xarope pode ter sido adulterado antes de chegar à indústria farmacêutica. O PG adquirido pela Sresan — 50 kg fornecidos em 25 de março — passou por um circuito considerado irregular pelos investigadores: foi comprado da distribuidora química Sunrise Biotech, que, no mesmo dia, adquiriu o lote da Jinkushal Aroma, empresa especializada em misturas químicas para fragrâncias e produtos de limpeza, e não em insumos de grau farmacêutico.
Nenhuma das duas empresas possuía licença para comercializar ingredientes destinados à produção de medicamentos, o que viola a Lei de Medicamentos e Cosméticos da Índia. Além disso, ambas confirmaram ter reembalado o solvente sem lacres de segurança, procedimento que contraria normas básicas de controle de qualidade e pode ter facilitado a contaminação do produto. Tanto a Sunrise quanto a Jinkushal negam ter manipulado DEG e afirmam desconhecer a origem da adulteração.

A Sresan, responsável pelo xarope, teve sua licença de fabricação revogada e seu fundador, G. Ranganathan, encontra-se sob custódia. Inspeções realizadas após as mortes identificaram centenas de violações críticas e graves, incluindo armazenamento em condições anti-higiênicas e falsificação de dados, segundo relatório obtido pela Reuters. Mesmo assim, o órgão regulador estadual não associou formalmente essas falhas às mortes.
O caso reacende preocupações internacionais sobre a segurança de medicamentos produzidos na Índia, cuja indústria farmacêutica movimenta US$ 50 bilhões e já enfrentou episódios semelhantes recentemente. Em 2022 e 2023, mais de 140 crianças na África e na Ásia Central morreram após ingerirem xaropes contaminados fabricados no país. Após aquelas tragédias, o governo indiano prometeu reforçar os controles de qualidade — promessa que volta a ser cobrada diante do novo episódio.

Autoridades sanitárias reconhecem que o DEG é, por vezes, usado de forma fraudulenta ou acidental para substituir o PG, mais caro. A substância está associada a insuficiência renal aguda e morte, especialmente em crianças. A Organização Central de Controle de Padrões de Medicamentos, responsável pela supervisão nacional, afirmou que novas inspeções estão em andamento em instalações farmacêuticas e que o uso pediátrico de xaropes para tosse está sendo revisado.
Apesar das normas exigirem inspeções anuais, a fábrica da Sresan não havia sido vistoriada desde 2023. O histórico da empresa inclui penalidades anteriores por falhas de qualidade em 2020, 2021, 2022 e 2023, mas nenhuma delas impediu que continuasse operando.
A investigação segue sem resposta para a principal pergunta: em que ponto da cadeia ocorreu a contaminação do solvente? Até agora, nenhuma das empresas envolvidas reconhece responsabilidade, e o Departamento de Controle de Drogas de Tamil Nadu não respondeu aos pedidos de esclarecimento.
Enquanto isso, familiares das vítimas aguardam conclusões oficiais e medidas efetivas para evitar que tragédias semelhantes voltem a ocorrer.
com informações : REUTERS














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