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População invisível: Prefeitura quer "resolver" problema das ruas empurrando os vulneráveis para a periferia de Rio Branco

9 de abr. de 2025
3 min de leitura

Mudança do Centro Pop, que atende mais de 600 pessoas em situação de rua, levanta críticas sobre exclusão social, insegurança e empurrão institucional dos mais pobres para longe do centro da capital.



O Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua (Centro Pop), que atualmente atende mais de 600 pessoas cadastradas no coração de Rio Branco, está prestes a ser transferido para um bairro da capital. A decisão da Prefeitura, anunciada como necessária por conta da estrutura precária do atual prédio e pressão de comerciantes do centro, está causando revolta entre moradores das áreas cotadas para receber o equipamento público.

A Secretaria Municipal de Assistência Social e Direitos Humanos (Seasdh) afirma que está avaliando novos locais para realocar o serviço. Entre as regiões analisadas estão Baixada da Sobral, Castelo Branco, Bosque e Floresta. O Ministério Público, por sua vez, teria sugerido o bairro Castelo Branco, por estar próximo a estruturas como a UPA, o Restaurante Popular e o Hospital de Saúde Mental do Acre (Hosmac).

O prédio será alugado para oferecer encaminhamentos a unidades de saúde, atendimento psicossocial e suporte para dependentes químicos, mas o que mais tem chamado a atenção da sociedade civil é a maneira como a mudança tem sido conduzida: sem diálogo público, sem ouvir os moradores dos bairros cotados e, principalmente, sem debater a responsabilidade do Estado na inclusão social de pessoas em extrema vulnerabilidade.

“O maior problema é tratar o Centro Pop como um incômodo que precisa ser escondido. Não é mudando de lugar que se resolve uma crise social complexa. Isso é jogar o problema para debaixo do tapete — ou para cima do povo da periferia”, comentou um morador do bairro Bosque, que pediu para não ser identificado.

Mudança do Centro Pop para bairro de Rio Branco preocupa moradores de localidades que estão sendo analisadas pelo poder público municipal — Foto: Andryo Amaral/Rede Amazônica Acre


Clamor dos comerciantes… e o silêncio da inclusão

A decisão da Prefeitura teve forte apoio da Associação Comercial do Acre (Acisa), que representa empresários e comerciantes do Centro. A presidente da entidade, Patrícia Dossa, justificou o apoio alegando que o comércio tem sido afetado por ações de vandalismo e furtos associados à presença constante de pessoas em situação de rua.

“O Centro Pop está prejudicando os comerciantes do Centro, mas é claro que a região que for escolhida também vai precisar de segurança, senão os problemas apenas mudarão de CEP”, disse Patrícia.

Moradores de bairros como o Castelo Branco, onde a mudança é mais provável, já se mobilizam contra a instalação. O comerciante Afonso Gomes, por exemplo, entregou um abaixo-assinado com quase 500 assinaturas à Câmara e à Assembleia Legislativa tentando impedir a instalação do centro de referência em sua região.


Centro Pop funciona no centro de Rio Branco e atende pessoas em situação de rua — Foto: Izaías Gomes/Assecom

Invisibilidade institucional

A crise é reflexo de um problema muito maior: O aumento da população em situação de rua no Brasil. Dados do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas apontam que houve crescimento de 25% no número de pessoas vivendo nas ruas nos últimos anos. Em Rio Branco, são 28 pessoas em situação de rua para cada 100 mil habitantes, com maioria entre 30 e 60 anos, segundo os dados mais recentes.

Para o professor de sociologia Nilson Euclides da Silva, o fenômeno está diretamente ligado ao fracasso das políticas públicas de inserção e à marginalização crônica de quem mais precisa.

“A sociedade deveria se organizar para incluir, mas o que vemos é o inverso: exclusão, abandono e agora até a tentativa de esconder essa população. Isso não é política pública, é omissão institucional”, criticou o professor.

Enquanto a Prefeitura estuda novos endereços para o Centro Pop, a realidade permanece a mesma: A população em situação de rua continua crescendo, as soluções continuam paliativas e a exclusão social vai sendo empurrada para a periferia — até que estoure novamente no centro do debate.


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