Mensagens vazadas revelam suposta rede secreta montada por Moraes para investigar atos de 8 de janeiro
Conversas indicam uso de estrutura do TSE para coleta informal de dados e produção de relatórios sobre manifestantes; operação teria envolvido servidores, assessores e colaboradores externos
Mensagens recentemente vazadas sugerem que o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), teria coordenado uma espécie de “gabinete paralelo de inteligência” para investigar e produzir provas contra manifestantes detidos após os atos de 8 de janeiro de 2023.

De acordo com reportagem publicada nesta segunda-feira (5) no site Civilization Works, do jornalista americano Michael Shellenberger, a apuração foi feita pelos jornalistas David Ágape e Eli Vieira, no âmbito do projeto “Vaza Toga”. As mensagens apontam que a estrutura do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), presidido por Moraes na época, teria sido usada para levantar informações sobre os suspeitos por meio de redes sociais e grupos privados de mensagens.
Atuação informal e fora dos canais oficiais
Segundo o material divulgado, a operação funcionava por meio de grupos de WhatsApp criados para coordenar a coleta de dados. Participavam da força-tarefa assessores do TSE e do STF, além de colaboradores externos como ativistas, universidades e agências de checagem de fatos. O objetivo seria rastrear e monitorar digitalmente pessoas presas em frente a quartéis e vinculadas aos atos antidemocráticos.
Ainda segundo os vazamentos, essas ações eram autorizadas por Moraes de maneira informal, via e-mails enviados de sua conta pessoal, evitando o uso de canais institucionais. A coordenação do grupo de inteligência teria ficado a cargo de Cristina Yukiko Kusahara, chefe de gabinete de Moraes no STF, responsável por criar e administrar o grupo no WhatsApp.
Certidões com base em postagens
Os dados coletados serviriam para gerar “certidões positivas”, produzidas a partir de comentários, curtidas e postagens em redes sociais. Esses documentos, ainda que informais, teriam sido usados para embasar prisões preventivas e dificultar liberações. Advogados de defesa, segundo a apuração, não tiveram acesso a esses materiais, que tampouco foram submetidos à análise do Ministério Público.
A operação também teria contado com a participação de Eduardo Tagliaferro, então chefe da Unidade Especial de Combate à Desinformação do TSE; Marco Antônio Martins Vargas, juiz auxiliar de Moraes no TSE; e Airton Vieira, assessor judicial do STF responsável por audiências de custódia. Mais de 1,4 mil perfis de detidos teriam sido analisados a partir de vestígios digitais.
As mensagens obtidas indicam que o trabalho da força-tarefa era feito em ritmo acelerado e, por vezes, de forma improvisada. “Certidões” eram criadas, retiradas e reemitidas em questão de minutos, muitas vezes sem justificativa aparente. Também foram identificados repasses diretos de informações da polícia para os grupos de WhatsApp, incluindo nomes, fotos e números de documentos dos detidos – sem qualquer formalidade ou cadeia de custódia.
Em um dos áudios vazados, um policial federal pede confidencialidade ao compartilhar dados, alegando que o material era “muito procurado” e estava sendo distribuído fora dos canais legais.
Ausência de respostas institucionais
Até o momento, nem o STF nem o TSE se pronunciaram sobre as revelações. A Gazeta do Povo e os jornalistas envolvidos na apuração relataram que tentaram contato com os tribunais e com os citados nas mensagens, mas não obtiveram retorno.















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