CARTA DE MAIS UMA VÍTIMA
ATÉ QUANDO AS MULHERES TERÃO QUE IMPLORAR POR PROTEÇÃO? NOTA DA PMAC PROVOCA REVOLTA E LEVANTA UM GRITO DE SOCORRO

É muito fácil falar sobre aplicativos, tornozeleiras eletrônicas, botões do pânico e protocolos de segurança. Difícil é viver com medo, olhar para trás a cada passo, ter receio de sair de casa e não saber se o homem que um dia prometeu amor será aquele que vai tirar sua vida.
A nota divulgada pela Assessoria de Comunicação da Polícia Militar do Acre (PMAC), após o caso registrado em Brasiléia na última segunda-feira (2), causa indignação e merece uma reflexão muito maior do que uma simples explicação técnica.
A corporação informou que o mecanismo envolvido na ocorrência era o Botão do Pânico, integrado à tornozeleira eletrônica do agressor, e destacou que não houve acionamento da Polícia Militar pelo telefone 190.
Mas e as mulheres que vivem diariamente sob ameaças? E aquelas que já procuraram a Justiça, registraram boletins de ocorrência, apresentaram vídeos, prints, gravações e testemunhas, mas continuam sentindo que estão sozinhas?
Este não é apenas um texto de opinião. É o relato de uma mulher que também é vítima de violência e que precisou deixar seu lar, sua cidade, sua casa, sua família e tudo aquilo que conhecia para tentar encontrar paz e segurança.
Não foi uma escolha simples. Ninguém abandona suas raízes, sua história, seus familiares e a vida que construiu porque deseja começar tudo do zero. Existem dores que não aparecem em fotografias, medos que ninguém vê e feridas emocionais que não desaparecem simplesmente porque a mulher decidiu ir embora.
Quem nunca passou por uma perseguição dentro de um relacionamento talvez não consiga compreender o tamanho desse sofrimento. A violência não acontece apenas quando um homem levanta a mão contra uma mulher. Ela também está no controle, na vigilância, nas ameaças, na perseguição, nas invasões de privacidade, nas mentiras espalhadas para destruir a reputação da vítima e na utilização dos filhos como instrumento para atingir a mãe.
É acordar sem saber o que poderá acontecer naquele dia. É ter medo de atender o telefone, de sair de casa, de encontrar alguém conhecido. É sentir que sua liberdade foi roubada por alguém que não aceita o fim de um relacionamento.
E, em meio a tudo isso, a mulher ainda precisa se explicar. Precisa provar que não está exagerando, que não está inventando, que não quer prejudicar ninguém. Precisa apresentar provas, repetir sua história, reviver situações dolorosas e, muitas vezes, se humilhar para tentar convencer alguém de que sua vida está em risco.
E sabe o que é ainda mais cruel? Quando ela decide ir embora para sobreviver, surgem os julgamentos. Dizem que faltou paciência, que ela deveria compreender o lado dele, que deveria pensar nos filhos, que talvez estivesse exagerando.
Mas ninguém pergunta quantas noites aquela mulher passou chorando. Ninguém pergunta quantas vezes teve medo de morrer. Ninguém vê o sofrimento psicológico de quem precisa reconstruir a própria vida enquanto continua sendo perseguida.
A culpa nunca é da mulher que escolheu sair de um relacionamento para preservar a própria vida. A culpa nunca é de quem pediu ajuda. A culpa nunca é de quem teve coragem de denunciar.
O aplicativo Mulher Segura e o Botão do Pânico são ferramentas importantes. Mas não podemos confundir a existência de mecanismos de proteção com a garantia de que todas as mulheres estão efetivamente protegidas.
Não basta disponibilizar um aplicativo. É preciso que ele funcione. Não basta instalar uma tornozeleira. É preciso fiscalizar, acompanhar e agir diante dos alertas. Não basta uma medida protetiva existir no papel. É preciso garantir que ela seja respeitada e que a mulher não fique desamparada enquanto o risco continua.
Quando uma mulher apresenta provas, denuncia ameaças e demonstra medo, ela não pode ser tratada como mais um protocolo a ser cumprido. Existe uma vida ali. Existe uma família. Existem filhos que também sofrem as consequências dessa violência.
E sobre a nota da PMAC, fica uma pergunta: se todos os mecanismos e procedimentos estão disponíveis, por que tantas mulheres ainda sentem que precisam gritar por socorro para serem ouvidas?
Explicar que não houve acionamento pelo 190 pode esclarecer um detalhe da ocorrência, mas não responde às angústias de quem vive sob ameaça e questiona a capacidade do sistema de protegê-la.
Nós não queremos explicações bonitas depois de uma tragédia. Queremos proteção antes dela. Não queremos homenagens, notas de pesar ou discursos de indignação quando mais uma mulher perde a vida. Queremos ações enquanto ainda existe tempo para salvá-la.
Até quando uma mulher precisará morrer para que sua história seja levada a sério? Até quando o medo será parte da rotina de quem só quer terminar um relacionamento e seguir em frente?
Nenhuma mulher deveria precisar escolher entre continuar presa a uma relação violenta ou arriscar a própria vida para conquistar a liberdade.
E quem escreve estas palavras não fala de uma realidade distante. Fala de uma dor que conhece, de uma história que carrega e de uma vida que precisou ser deixada para trás na tentativa de sobreviver.
Por trás de cada denúncia existe uma mulher. Por trás de cada medida protetiva existe alguém que está pedindo para continuar viva. E por trás de cada silêncio pode existir alguém que já perdeu as forças de pedir ajuda.
PROTEGER MULHERES NÃO É APENAS CRIAR MECANISMOS. É FAZER COM QUE ELES FUNCIONEM QUANDO UMA VIDA ESTÁ EM PERIGO.
Que nenhuma mulher precise abandonar, sua cidade sua casa, sua família ou sua própria história para conseguir viver em paz. E, principalmente, que nenhuma precise morrer para finalmente ser ouvida.













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