Após 7 anos, tragédia de Brumadinho começa a ser julgada e famílias esperam justiça
Sete anos após uma das maiores tragédias socioambientais da história do Brasil, o rompimento da barragem da Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho (MG), finalmente começa a avançar no Judiciário. O desastre ocorreu em 25 de janeiro de 2019 e deixou 272 pessoas mortas, além de causar danos ambientais e sociais incalculáveis.

Naquele dia, por volta das 12h30, uma onda de rejeitos de mineração destruiu instalações da mineradora Vale, comunidades e áreas naturais, soterrando trabalhadores e moradores. Desde então, familiares das vítimas convivem com a dor da perda e a espera por responsabilização criminal.
Um desses relatos é o de Nayara Porto, que perdeu o marido, Everton Lopes Ferreira, de 32 anos, funcionário da Vale. Ela recorda que estava em casa preparando um pudim quando ouviu comentários sobre o rompimento da barragem. Minutos depois, a confirmação da tragédia mergulhou sua vida em desespero. Everton trabalhava no almoxarifado da mina, estrutura que foi completamente destruída pela lama.

Passados 2.557 dias do desastre, nenhuma pessoa havia sido responsabilizada criminalmente. No entanto, esse cenário começa a mudar. A partir de 23 de fevereiro, terão início as audiências de instrução na 2ª Vara Federal Criminal da Subseção Judiciária de Belo Horizonte. Ao todo, 15 pessoas podem responder criminalmente pelo ocorrido — 11 ex-diretores, gerentes e engenheiros da Vale e quatro funcionários da empresa alemã TÜV SÜD, responsável por atestar a estabilidade da barragem.
As audiências devem se estender até maio de 2027, com a oitiva de vítimas não letais, testemunhas e réus. Ao final desse período, a juíza federal Raquel Vasconcelos Alves de Lima poderá decidir se o caso será levado a júri popular.
Especialistas destacam que o episódio de Brumadinho não é um caso isolado. A jornalista Cristina Serra, autora de livros sobre desastres ambientais no Brasil, aponta semelhanças com o rompimento da barragem de Mariana, em 2015, e com o afundamento do solo em Maceió, causado pela exploração de sal-gema. Em todos esses episódios, até o momento, não houve condenações criminais.

Segundo ela, há um padrão de negligência por parte de grandes empresas de mineração, que priorizam o lucro em detrimento da segurança, além de falhas graves nos órgãos de fiscalização, que se baseiam excessivamente em documentos apresentados pelas próprias companhias, sem fiscalização presencial efetiva.
Em nota, a Vale informou que não comenta processos judiciais em andamento, mas destacou que já executou 81% do Acordo Judicial de Reparação Integral até dezembro de 2025, com ações voltadas à recuperação socioambiental, abastecimento hídrico e diversificação econômica da região, além de investimentos em segurança de barragens.
A TÜV SÜD declarou solidariedade às vítimas, mas afirmou não ter responsabilidade legal pelo rompimento, sustentando que as declarações de estabilidade emitidas estavam de acordo com a legislação e padrões técnicos vigentes à época.
Neste domingo (25), familiares e atingidos se reúnem em Brumadinho para um ato em memória das 272 vítimas. A homenagem será realizada no letreiro da cidade, simbolizando a resistência das famílias e a luta contínua por justiça, verdade e responsabilização.















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