Abuso em praça pública: Prefeitura usa força para acabar com roda de capoeira
O que era para ser uma tarde de celebração da cultura, da ancestralidade e da arte terminou em constrangimento, revolta e denúncia. O Grupo Axé Capoeira, por meio da Associação Cultural e Desportiva Axé Capoeira do Acre, divulgou na noite deste domingo (7) uma Nota de Repúdio contra a Prefeitura de Rio Branco após a interrupção considerada truculenta, preconceituosa e intimidatória de uma roda de capoeira realizada na Praça da Revolução, no Centro da capital.

De acordo com a entidade, o episódio aconteceu durante a realização do 5º Aulão do Grupo Axé Capoeira, evento que estava organizado e agendado há semanas, fazendo parte do calendário oficial da associação. A atividade ocorreu das 16h30 às 19h30 e, segundo os organizadores, havia sido previamente pactuada com a Fundação Garibaldi Brasil.
Mesmo sem qualquer apoio institucional, o grupo realizou o evento com recursos próprios, reunindo cerca de 200 capoeiristas, além de apresentações de Frevo, Samba Reggae, Afroxé, Maculelê e a tradicional roda de capoeira. O local estava tomado por famílias, crianças, jovens e amantes da cultura afro-brasileira.
Interrupção após chegada do prefeito
Segundo a nota, por volta das 18h, membros da equipe da Prefeitura invadiram o espaço e determinaram o encerramento imediato da roda, sob a justificativa de reorganização da programação do evento “Acender das Luzes de Natal”, que havia sido transferido do sábado para o domingo devido às chuvas.

Ainda conforme o relato, a ordem para encerrar a atividade foi dada logo após a chegada do prefeito Tião Bocalom (PL) ao local. Aproximadamente dez comissionados teriam sido enviados para acabar com a apresentação de forma desrespeitosa, ignorando completamente o público presente e a organização do evento cultural.
A situação se agravou ainda mais quando, segundo os organizadores, os responsáveis da Prefeitura, a mando do prefeito, decidiram acionar a Polícia Militar para tentar encerrar a atividade. A atitude foi vista como ameaça, intimidação e abuso de autoridade.
O clima rapidamente se transformou em constrangimento público, com discussões entre responsáveis, integrantes do grupo e membros da gestão municipal. Diante da pressão e do ambiente de tensão criado, a roda de capoeira acabou sendo forçada a encerrar suas atividades, frustrando dezenas de participantes.
Capoeira é protegida por lei
Na Nota de Repúdio, o Grupo Axé Capoeira lembra que a capoeira é Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil desde 2008, reconhecida pelo Iphan, e Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade desde 2014, pela UNESCO. Além disso, a prática é protegida pelo Estatuto da Igualdade Racial (Lei nº 12.288/2010).
A entidade também ressalta que a interrupção forçada ou discriminatória de uma roda de capoeira pode gerar responsabilização civil e criminal, por violação de direitos culturais.
“A capoeira já foi criminalizada no passado, mas hoje é protegida por lei. Impedir uma manifestação cultural dessa natureza é uma violência contra a história e contra o povo”, destaca a nota.
Outro ponto grave denunciado pelo grupo é que, em 2025, a Prefeitura de Rio Branco não lançou nenhum edital de fomento à cultura ou ao esporte, deixando coletivos e associações completamente abandonados, obrigados a sobreviver exclusivamente com recursos próprios.
O Mestrando Ithamar da Silva Souza, conhecido como Mestrando Malvado, informou que o caso será levado à Corregedoria da Polícia Militar, para que seja apurada a conduta do militar envolvido na ocorrência.
Ao final, o Grupo Axé Capoeira reforça que não é extensão de nenhuma fundação ou órgão público e que não aceitará ser silenciado, afirmando que continuará defendendo o direito de exercer livremente suas atividades culturais e esportivas.















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