A ESQUERDA E AS MENTIRAS CONTADAS: Captura de Maduro escancara hipocrisia da esquerda e o jogo duro dos EUA na Venezuela
A captura do ditador venezuelano Nicolás Maduro expôs, de forma incontornável, duas realidades paralelas: de um lado, o cinismo de setores da esquerda latino-americana, especialmente do PT, que agora bradam contra uma suposta violação do direito internacional; de outro, o pragmatismo brutal da geopolítica dos Estados Unidos, para quem a democracia venezuelana parece ocupar lugar secundário diante de interesses estratégicos e econômicos.

Durante mais de 20 anos, Lula, o PT e seus aliados fecharam os olhos para um regime acusado de repressão, assassinatos, perseguição política e colapso institucional. Sem qualquer pudor, apoiaram uma ditadura que levou quase 8 milhões de venezuelanos a abandonar o próprio país, produzindo uma das maiores crises humanitárias da história recente do continente. Agora, os mesmos atores se dizem indignados em nome da legalidade internacional — uma indignação seletiva, tardia e profundamente contraditória.

A soberania nacional e a autodeterminação dos povos, princípios consagrados na Carta da ONU, deixaram de existir na Venezuela há muito tempo.

O país tornou-se refém de uma organização criminosa de poder que se sustenta por meio da fraude eleitoral, da repressão armada e do apoio direto de regimes estrangeiros, como Cuba, Rússia e Irã, além de conexões com o narcotráfico internacional. Trata-se de uma soberania corroída por dentro, mantida apenas como retórica para legitimar a opressão.
A farsa democrática ficou ainda mais evidente na eleição presidencial de 2024, amplamente denunciada como fraudulenta. Mesmo com a vitória da oposição nas urnas, o regime impediu a alternância de poder, enterrando qualquer aparência de autodeterminação popular. Nesse contexto, falar em violação do direito internacional apenas a partir da captura de Maduro é ignorar décadas de crimes cometidos pelo próprio regime contra seu povo.
Antes de ser levado a tribunal sob acusações de narcoterrorismo e ameaça à segurança nacional dos Estados Unidos, Maduro e seus asseclas já haviam violado, de forma sistemática, praticamente todos os princípios que sustentam a civilização democrática. O direito internacional, vale lembrar, não pode servir de abrigo para tiranos nem de escudo para regimes criminosos.
O que torna o episódio ainda mais revelador é o discurso ambíguo de Donald Trump e de seu secretário de Estado, Marco Rubio. Apesar do simbolismo da captura, as declarações indicam disposição para negociar com a cúpula remanescente do regime bolivariano, especialmente com Delcy Rodríguez, figura central do poder chavista. O recado é claro: não haverá nova intervenção militar se o regime facilitar o retorno de empresas americanas ao setor petrolífero venezuelano.
Em jogo estão indenizações bilionárias, acesso às maiores reservas de petróleo do mundo e até parcerias estratégicas para reconstrução da infraestrutura do país. Em troca, Washington exige alinhamento político e o afastamento da Venezuela de China, Rússia, Irã e Cuba. A democracia, nesse arranjo, aparece como detalhe incômodo — não como prioridade.
O impacto desse realinhamento vai além da Venezuela. Sem o petróleo praticamente doado por Caracas, o regime cubano corre o risco de colapso definitivo. Mais do que derrotar o chavismo, Trump busca enviar um recado direto à China: os Estados Unidos não abrirão mão da América Latina, região-chave na disputa pela hegemonia global.
Ao atualizar a Doutrina Monroe e assumir sem disfarces uma postura neocolonial, Washington reforça seu domínio estratégico, mas paga um preço alto. Ao relegar a redemocratização venezuelana a segundo plano, trai a oposição liderada por María Corina Machado e enfraquece o principal ativo histórico do poder americano: a defesa da liberdade como valor universal.
Desde a Segunda Guerra Mundial, a liberdade — política, econômica e democrática — foi o motor do soft power dos Estados Unidos e o que os diferenciava dos regimes totalitários. Abrir mão desse discurso em nome do pragmatismo imediato pode garantir vitórias táticas, mas ameaça corroer a base moral que sustentou a influência americana por décadas.
No fim, a hipocrisia da esquerda que sempre relativizou tiranias “amigas” e expõe um ocidente disposto a negociar princípios em troca de interesses, poder e influência. A democracia venezuelana segue como moeda de troca, assim como no Brasil? Em um jogo que pouco tem de idealista — e muito de implacável.















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